quarta-feira, 8 de julho de 2009

O quarto

Era uma menina marcada pela ausência de pai.Eram diversas casas, quartos cedidos, mas nunca verdadeiramente seus.Uma presença sempre condicionada às imposições dos donos.Quando finalmente a vida lhe presenteou com um cantinho, era o seu quarto,sua caminha , sua familia, seu pai.Ela fugia aínda, como um bichinho que aprendera a ser solto, mas voltava a ser criança ao adentrar nos cômodos da casa.Era parceira, amiga , fiel, filha.Seu pai, amava ouvir sua voz de bebê chamando por ele, pedindo beijos antes de dormir, requisitando sua presença.Mas quando os filhos verdadeiros chegavam, o quarto não era mais dela, era preciso cuidado para não chamá-lo de pai na frente deles e qualquer carinho parecia um cabelo a importunar-lhe a face.Eles eram legítimos, eles tiveram um quarto, uma familia, um pai.E a filha emprestada, que nunca esquecera um aniversário, um abraço, um te amo, agora deveria ceder aos enfantes verdadeiros.Eles iam e vinham, quando desejavam, magoavam como quem pisa em flores e voltavam sorrindo, como se nada tivesse acontecido.E a menina tinha que sorrir também ou sair de casa.De preferência sentar na sala e assistir, aplaudir a bela voz que ela não tinha vivendo por osmose seu sonho inútil de cantar.Eles eram perfeitos, bonitos, bem sucedidos e unipotentes.Tinham o poder de afastar e atrair ao estalar os dedos e ela, não tinha nada que fosse realmente seu.A única vez que a filha emprestada sentiu bases no amor para dizer o quarto é meu, o pai é meu, causou-lhe uma mágoa profunda, e neste exato momento, suas cobertinhas desapareceram do roupeiro, suas coisinhas, seus livros, sua caminha cheia de bichinhos, se dissiparam como o vento.Queria poder ter dado a menina o quarto como uma verdade em sua vida, mas mais uma vez ela só pode ficar se entender que aquilo ali não é seu, que não pode causar constrangimento áqueles que chegarem para dormir.Cabe a mãe aínda que tardiamente lhe dar o quarto que será só dela, dar seu coração e seu colo para que ela possa enfim caminhar com segurança e um dia pintar as paredes de um verdadeiro lar.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Infância

Eram muitos brinquedos, medos e ausências.
Um zelo exagerado de quem protege a ferida e compensa a perda.
Era a mãe que não assumira a filha, entregue aínda no berço.
E avós perfeitos, perplexos prontos a acolher a menina.
Era eu a criança, e sempre só ensaiava a dança do amor de mãe, da familia unida, do quarto colorido e o beijo antes de dormir.
Adorava um sapatinho mágico e sempre estava impecável, comportada , solicita como quem tem consciência e gratidão.
Eles me ensinaram tudo e eu retribuia com perfeição .
Minha mãe vinha de visita, moça, linda, e descomprometida.
Hoje, não sei aceitar presentes, me enrubece as faces , nem tão pouco comprá-los.
Me cobro demais, tudo impecável, como se do contrário, não merecesse á casa onde vivo.
Recebo amor do homem que me embala, me traz de volta e abriga em seus braços, o bebê do berço branco, a mulher da casa arrumada, o resultado da infância.