quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Integridade

Hoje eu e meu marido conversavamos sobre viver a vida, não simular a vida.Deveriamos ter uma bronca crônica com ela porque tem nos aprontado poucas e boas.Nossa maior luta é contra nós mesmos, contra nossos entraves.Mas nos deparamos com pessoas que querem participar da vida nas bordas.Se estão por cima, são amáveis do contrário se enclausuram.O tesão de viver a vida, é deixar-se ferir, rir até cansar, chorar muito, assumir os erros, é prazeirosamente angustiante, mas melhor que qualquer massagem terapêutica.Ser desculpado, então, é um renascimento.Mas há os que desejam participar da vida e abrem o orkut uma vez por semana, adoram música e cantam o carro chefe do cd da Ana Carolina, criam locais inovadores em territórios inóspitos , querem muito discutir sobre literatura, mas não lêem nada novo.Não há nada melhor do qque saber participar deste imediatismo a que estamos inseridos.Tudo é para ontem, sejamos nós rápidos o bastante.Velozes com nossa evolução, com nossa ânsia de viver, com nossa sede de conhecimento.Sejamos honestos com nós mesmos.Que venham os erros e o consolo dos amigos, que venham as comemorações todas já que o amanhã ninguém sabe.Que possamos conhecer e conceber mudanças.Não podemos negar a história, ela explica onde chegamos, mas vamos caminhar livres, plenos e serenos lutando pela única verdade que não nos abandona, nossa integridade.

domingo, 13 de setembro de 2009

A medida da maldade

Quem tu é afinal?Que fera habita tuas entranhas?Que dor é essa que necessita ser dividida, que raiva que contamina tua comida.O que te move para destruir tudo que fizestes com carinho e gerar abandono onde era ninho e selecionar áqueles que não merecem ser feridos.Os que não estiveram contigo?Por quê a vontade de tirar o brilho, e ficar observando os rostos tristes e sentir satisfação no descontentamento.Parceria para tua dor é o que buscas?Quer repartir a ira dos infelizes?Viver é uma opção, é uma caminhada que se pode fazer ou não.Arrastar , levar junto para o escuro é injusto.Abraça a fera, compactua com ela tuas dores, arruma a casa, fecha as portas, as janelas, cobre de negro a casa, te isola , mas vive uma verdade.Casa com a solidão, beija o abandono mas rebenta na clareza do que realmente te pertence.Nesta leitura torta da vida que te ataca e te faz sair detonando tudo e querendo platéia para o desespero.Ninguém está te pedindo nada , só não apaga a luz de quem cuidadosamente acendeu a vela.

sábado, 8 de agosto de 2009

Vanessa

Sinto uma saudade imensa da minha filha.Coisa de mãe achar que ela precisa de meus conselhos ou que aquelas palavras prontas ajudariam em algum momento.Eu a amo, o amor mais cruel e puro, cruel por ser instinto e a fome dos instintos dói.Quero o cheirinho dela de menina, aquele suorzinho que fica perto dos fios de cabelo, a impaciência herdada de resolver tudo que a incomoda, a densidade que a faz tão bela e forte e fraca e confusa e minha.Me nutro de raiva de mim pelas escolhas que fiz e que hoje me impedem de vê-la.Me desgosta o que me tornei há alguns anos, por segurança.Não bebo, não como o que me possa fazer mal, tenho medos e medos de perder o pouco que adquiri e juro que gostaria de mandar tudo as favas em nome da única certeza que tenho, meu amor por ela.Que vontade de tomar um vinho e dizer o que não posso e não ser educada e dançar com meus amigos e viajar escutando Ana Carolina, a música mais devassa, a estrada mais perigosa, com minha filha ao lado, e à noite, escolhermos a roupa da festa .Saudade filha da mulher que encantava, que acreditava, que se permitia.Preciso dela e mais agora quando não estás.Não há um dia sequer que não pense em vender o carro colocar a mochila nas costas e ficar perto de ti, é quase um veneno. Ser tua mãe, linda menina é o maior tesão que tenho na vida porque de ti só vem o que me esgota, a adrenalina que me torna viva.Te amo!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O quarto

Era uma menina marcada pela ausência de pai.Eram diversas casas, quartos cedidos, mas nunca verdadeiramente seus.Uma presença sempre condicionada às imposições dos donos.Quando finalmente a vida lhe presenteou com um cantinho, era o seu quarto,sua caminha , sua familia, seu pai.Ela fugia aínda, como um bichinho que aprendera a ser solto, mas voltava a ser criança ao adentrar nos cômodos da casa.Era parceira, amiga , fiel, filha.Seu pai, amava ouvir sua voz de bebê chamando por ele, pedindo beijos antes de dormir, requisitando sua presença.Mas quando os filhos verdadeiros chegavam, o quarto não era mais dela, era preciso cuidado para não chamá-lo de pai na frente deles e qualquer carinho parecia um cabelo a importunar-lhe a face.Eles eram legítimos, eles tiveram um quarto, uma familia, um pai.E a filha emprestada, que nunca esquecera um aniversário, um abraço, um te amo, agora deveria ceder aos enfantes verdadeiros.Eles iam e vinham, quando desejavam, magoavam como quem pisa em flores e voltavam sorrindo, como se nada tivesse acontecido.E a menina tinha que sorrir também ou sair de casa.De preferência sentar na sala e assistir, aplaudir a bela voz que ela não tinha vivendo por osmose seu sonho inútil de cantar.Eles eram perfeitos, bonitos, bem sucedidos e unipotentes.Tinham o poder de afastar e atrair ao estalar os dedos e ela, não tinha nada que fosse realmente seu.A única vez que a filha emprestada sentiu bases no amor para dizer o quarto é meu, o pai é meu, causou-lhe uma mágoa profunda, e neste exato momento, suas cobertinhas desapareceram do roupeiro, suas coisinhas, seus livros, sua caminha cheia de bichinhos, se dissiparam como o vento.Queria poder ter dado a menina o quarto como uma verdade em sua vida, mas mais uma vez ela só pode ficar se entender que aquilo ali não é seu, que não pode causar constrangimento áqueles que chegarem para dormir.Cabe a mãe aínda que tardiamente lhe dar o quarto que será só dela, dar seu coração e seu colo para que ela possa enfim caminhar com segurança e um dia pintar as paredes de um verdadeiro lar.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Infância

Eram muitos brinquedos, medos e ausências.
Um zelo exagerado de quem protege a ferida e compensa a perda.
Era a mãe que não assumira a filha, entregue aínda no berço.
E avós perfeitos, perplexos prontos a acolher a menina.
Era eu a criança, e sempre só ensaiava a dança do amor de mãe, da familia unida, do quarto colorido e o beijo antes de dormir.
Adorava um sapatinho mágico e sempre estava impecável, comportada , solicita como quem tem consciência e gratidão.
Eles me ensinaram tudo e eu retribuia com perfeição .
Minha mãe vinha de visita, moça, linda, e descomprometida.
Hoje, não sei aceitar presentes, me enrubece as faces , nem tão pouco comprá-los.
Me cobro demais, tudo impecável, como se do contrário, não merecesse á casa onde vivo.
Recebo amor do homem que me embala, me traz de volta e abriga em seus braços, o bebê do berço branco, a mulher da casa arrumada, o resultado da infância.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ama o quê?

Durante muito tempo vivi um relacionamento em que a pessoa afirmava me amar.Bastava um feriado para ele planejar programas separados, não podia me ajudar porque queria me tornar independente, não me desejava,mas me amava e fui me contentando com migalhas de sorrisos, beijos e alegrias tão rotineiras quanto escovar os dentes.Será que existe amar diferente?Me questiono se o amor não é o mesmo para o inculto e o sábio por se tratar de sentimento.Aínda hoje vislumbro eu te amo, sem a menor solidez, sem atitude, sem verso.Ama o quê? Ama as vezes que te esperei cheio de entusiasmo e não apareceste? As promessas dos almoços de domingo e o rombo no cartão de crédito que fazia para teres o melhor?As músicas escolhidas a dedo para tocarmos juntos quando aparecias.Amas o telefonema não dado, o cheiro do livro velho com a dedicatória já ultrapassada ou os tempos idos.Amas a mim ou minha memória, o que sou e escolhi para minha vida ou meu retrato amarelado presente na tua.Amas o homem que hoje estranha não ser feliz ou o pai denso preso as dores antigas e culpas.Amas o insith de amor que te acomete, e o descaso depois que baixa a febre , ou amas me amar de vez em quando como quem abre um diário antigo e se surpreende com a foto do namorado? Será que este é o amor diferente ou amor continua sendo sinônimo de saudade, desejo de estar perto, respeito e orgulho e a pressa de viver para ser feliz.Eu mudei, conheci o amor que faz viver, o amor que vacila, mas não morre, o amor que cresce com o passar dos anos e trabalha incansavelmente para colher os próprios frutos.Se é esse o amor do qual te referes, vem.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Hora de partir.

É hora de partir quando já não há empatia entre os laços.Quando o abraço se torna um ato reflexo, quando se condicionam atitudes à gratificações.É hora de partir quando o carinho vira hábito, quando não há mais sentimento e o sangue nas veias já coagulou.hora de deixar para traz pessoas, história, rótulos impostos, fracassos.O filho que não respeita, a matriarca alienada , o algoz do passado.É hora de soltar os nós do compromisso, o peso da culpa, os restos e objetos carregados de lembrança.Momento de reiventar a dança, redecorar a casa, trocar as vestes pesadas de profissionalismo.Tempo de pegar o amor e a mala, o violão , a sapatilha, o livro, juntar os fragmentos que sobraram das decepções e seguir a estrada.Cidade nova, gente sem passado, a gente sem memória e um novo roteiro a escrever.Ainda que tarde, hora de crescer para as verdades, de acreditar nas novidades e nas surpresas, de dar o último grito, hora de simplesmente deixar os móveis que não saem do lugar, os critérios imutáveis, as toalhas de linho do século passado e o amor fingido, enquadrado, ensaiado e preso.Sabe-se que é hora de partir quando não se cabe mais no cenário e a inadequação pesa mais do que o suportável.A vida nos faz enxergar com olhos ilesos quando é hora de partir.