quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Registros

Devia permanecer o que um dia foi bom.Como os gostos sabidos, as músicas que nos levam longe, o carinho que ativa o desejo.Devia permanecer a decisão de fazer algo novo e permitir o tempo de assimilação.Deveria ser para sempre o sorriso de bom dia, sagrado, fiel, o abraço do adeus, os momentos em que se descobriu a alegria.Como é oculta a descoberta na idade das raizes, como o novo rápido, limpo e cru nos assusta e se perde nas paredes sólidas dos registros.Queria poder quebrá-los um a um, destrui-los e me sentir livre, nua depois.Queria acordar e esquecer o que sei e sair sem credos, laços ou destinos e simplesmente vislumbrar, desvendar , dar a mão, buscar o novo.Adoraria se pudessemos ter um pacto de mudar tudo, roupas, formas, conceitos e já que a vida não muda, mudemos nós.Queria pegar tua mão estrada à fora e te dar meus olhos para veres que o mundo pode ser diferente, que se pode vencer o inimigo sem machucá-lo com estratégia , que se pode transmutar mágoa em lágrimas doces, incompetência em desafios, luta em conquista.Queria te dar a sensação prazeirosa de vencer a si mesmo, a melhor delas, a verdadeira superação.Lembra dela quando começaste?Lembra quando quiseste construir, juntar, arranjar, montar as peças soltas?Lembras o trabalho árduo que foi nos aproximarmos?Devia permanecer o que um dia foi descoberto como bom, selado, sacramentado, definitivo, solo fértil para as eternas viagens e descobertas.

domingo, 16 de novembro de 2008

Respeito

De repente loucos invadem o quarto dizendo falar em nome de Deus.E em nome de Deus em frente à senhora das orações começam a verbalizar insanidades.A Nossa Senhora da Salete, a santa que minha vó sempre acreditou e foi devota, de acordo com eles é a causa de sua doença pois nada mais é do que uma pomba-gira, e que ela está possuida por demônios .Para eles, a doença não existe, os evangélicos não adoecem , morrem de velhos, não são pobres pois Deus nos quer ricos e quem está enfermo ou morreu assim está dançando no fogo do inferno.A pessoa que verbalizou estas atrocidades aínda é parente.Onde estamos?Onde está o respeito religioso?Como doentes mentais se tornam enfermeiros e responsáveis por pacientes terminais.Quantos ele já não deixou morrer exorcizando.Pela primeira vez entendi a causa das guerras religiosas, ao menos as questionei.Tão perigoso quanto o nazismo este crescente grupo de seres alienados, fruto de lavagens cerebrais invadem nossas casas , ruas, seduzem ignorantes, enriquecem as nossas custas, assediam nossas crianças, em nome de Deus.Estes templos, fabricados, pensados onde desde a decoração até o som são projetados para atingir zonas cerebrais e fabricar soldados alegando tirar do vicio, da infidelidade, da pobreza, nada mais são do que um teatro, um palco de grandes atores e curas combinadas regadas a parte do salário suado dos pobres fiéis.Cada um faça suas escolhas , somos responsáveis por elas, ou não.Mas que haja respeito.Meu avô dizia: respeito é bom e conserva os dentes!

domingo, 9 de novembro de 2008

Para Gilson França Goulart, um grande homem!

Um homem belo, um belo violão e os passos silenciosos da expectativa nos corredores frios de um hospital.Uma senhora feita de luz,entregue, inerte,imóvel, desistindo...De repente a música, as canções que ela sabia e aquela voz fraca entoando as melodias e querendo, através delas, dizer tudo o que sentia.Os olhos brilhavam e ordenava que a virassem para o lado de onde a música vinha, que levantassem a cama pois a vida voltava a mover seus ossos frágeis.A cada instante alguém chegava, um enfermeiro, outro, os anjos cuidadores dela e todos perplexos com sua sede de sugar aquele momento, talvez o último ou o primeiro, a motivação que faltava.E ela cantava e lembrava e chorava de emoção e todos comovidos cantavam juntos mesmo desconhecendo a canção.Um homem belo, um coração, que por um breve momento trouxe uma mulher de volta.Das decisões da vida, te amar é a que me causa mais orgulho.

domingo, 2 de novembro de 2008

MEDO

O que seria de nós soltos e distantes.Que roupa eu usaria se não pudesse perceber teu olhar de ciúme.Que música eu escutaria que não me lembrasse tua voz, que textos eu leria se não pudesse discuti-los depois.Que alimento eu faria se não pudesse vislumbrar teu sorriso de satisfação, como quem degusta a maçã do paraiso.Que casa eu perfumaria se não fosse para guiar teu rumo.Que sentido eu daria para minha vida sem tuas filosofias de não fazer sentido, sem teu ateismo que me apaixona pela coerência e lucidez.Quem me levaria para a cama nas cobertas dos carinhos noite após noite e me faria adormecer ao som de sua risada.Quem me ensinaria as diferenças, as paciências , todas as seguranças que busquei a vida toda.De que valeria o trabalho se no final do dia, no final das forças, no cansar do corpo não pudesse me atirar em teu abraço e matar a sede num longo beijo...O que faria com minhas mãos deslocadas sem as tuas, minha voz sem teu compasso, meus impulsos sem teu freio, meu desejo descabido sem tua fome, minhas estradas sem tua seta, meus desesperos sem tuas sábias palavras.Quem eu seria não fosse o teu desenho exageradamente apaixonado que me torna bela, o teu zelo que ilumina meu caminho, a tua cara de saudade que me traz de volta.Medo tens do tamanho deste amor porque ele abrangeu tudo, tomou conta, limpou os cantos, abriu janelas, se fez sorriso, livro, música, cheiro, pele, desejo, vazio e eco.Medo tenho porque me deste sentido à vida, objetivo, sonho, consequência.Tenho medo porque já não é tão fácil simplesmente partir, desistir, interromper.Teu amor me faz querer viver e isto me apavora!

Momento

O momento é de pisar leve, de acreditar sem escolher, de respeitar o curso da história.
O medo nem sempre é da face da morte, mas do abraço do adeus.
A beleza aparece nas horas mais cruas, nas lágrimas que jorram somente quando as comportas se abrem, no suportar mais do que se julga poder e ir além por amor.
Aparece quando pessoas se unem para tomar conta, acalentar, acalmarem-se mutuamente e onde os erros se apagam, as mágoas, porque algo maior rebenta, a compaixão.
Me sinto num turbilhão de emoções e incertezas , um temor de sorrir previamente para desabar depois.
Vai passar, como tudo passa.
Só sei que hoje ao tocar os cabelos da senhora das orações, sinto cada fio, como fibras da vida, cada beijo em sua testa respiro fundo para eternizar seu cheiro, cada minuto se torna vital e único.
Nunca os dias a mais tiveram tanta importância, nunca o tocar do telefone foi tão enfadonho, nunca meu coração acelerou tantas vezes num mesmo dia.
Mas por ela, todas as dores, todos os amores, as flores e as cruzes.
Por ela tudo é sempre pouco, sem ela, todos os vazios.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Senhora das orações.

É ela a senhora das orações, dos abraços, dos abanos na rua.Ela que encanta com sua delicadeza e sua forma de ver flores em todos os cantos, de enxergar beleza nos seres enfadonhos,e sempre ter uma explicação para tudo.Ela e seu coração do tamanho do mundo.Ela e sua calma diante das tempestades, seu amor interminável, suas longas histórias contadas em goles de chimarrão.Ela e suas bolinhas de queijo e seu beijo sereno em nossas cabeças.Ela e seus grupos de amigas, seus passeios, sua música, suas lembranças amargas nas horas de solidão.Ela e suas frágeis mãos segurando nossas quedas.Ela e sua porta sempre aberta e o telefone perto sempre pronta a ouvir nossas queixas.Ela e suas madeixas brancas como nuvens , seu terço rezado todos os dias e seus olhos de criança iluminando nosso senso de realidade.Ela, senhora do amanhã, minha vó, minha mãe, meu destino.Que teu Deus te cubra e ampare nestas horas e faça por merecer a filha devota que sempre foste.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Resgate

Me tiraste do meu pesadelo mais profundo quando de repente teu sorriso limpo e profundo invadiu e clareou a sala.Me abraçaste com o calor de todos os adeuses ,de todas as esperas, de todas as chegadas.Me guiaste no caminho das minhas próprias descobertas me levando pela mão para encontrar a porta de casa.Me banhaste com teu amor sereno lavando minhas mágoas e me deste café quente, melodia , desejo e aconchego.Me embalaste em teus braços ternos e densos,mansos para meus pesos,forte para minha paixão.Me tiraste a dor como quem massageia os corpos e numa bandeja e apresentaste respostas, propostas ,planos e constatações.E nos fizemos bem, nos amamos plenos, nos moldamos ás nossas próprias loucuras .E choramos perplexos diante da grandeza do que sentimos.O caminho que virá, não sabemos, não importa.Não garantimos nada, mas o amor se fez estrada para a eterna volta de nós mesmos.

domingo, 5 de outubro de 2008

Teoria do amor demais.

Te busquei nas rotas avessas , nos caminhos errôneos.Queria te encontrar e explodir em luz o amor que havia guardado.Te busquei em repulsas e recusas, esperas e chegadas sabendo-te meu até o cruzamento da estrada.Quando finalmente meu corpo se abrigou no teu abraço entreguei a ti minha felicidade.Era imenso demais para o pote dos problemas, a densidade da dor, o vazio da saudade.Eterno demais para os adeuses e claro demais para os porões de nossos medos.Se não se expandisse, sufocava, se não tocasse embrutecia, se não fosse cúmplice se tornaria suicida , se não compartilhasse se recolheria ao abandono.Era intenso demais para pouco tempo, desejo demais para poucas horas,puro demais para a realidade.Ele não aprendeu onde se encaixar nas fatalidades da vida, nos traumas do passado e não permitia a espontaneidade porque era incomum e não compartilhava os fatos da vida.Se partias ele queria sair junto na bagagem,se te recolhias ele queria simplesmente estar ali pendurado no teu corpo inerte.Era grande demais para pequenos feitos,e as janelas tornaram-se pequenas para tento dia, as noites curtas para tanta fala e a distância longa demais para a necessidade do encontro.Ele queria ocupar todas as arestas e vislumbrar a beleza onde não havia e por isto se afastava.E nenhuma mágoa era capaz de causar o afastamento, nenhuma raiva maior que a mesa posta, nenhum respirar que não sentisse o cheiro.E quando insanos caminhavamos perdidos,ele nos encontrava e sempre nos trazia de volta para mais uma vez nos tornar vivos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O caminho do amor eterno.

Só fico com quem não me deixe partir...
Era uma mala de mágoas e o amor arrebentando no peito e um desejo absurdo e absoluto de sentir teu cheiro, ouvir tuas palavras, tua música e viver a vida contigo.Queria abrir tudo e gritar meu amor ao mundo.Um amor tão grande que sufoca se não rebenta em luz.O amor começou a me trancar a garganta e os poros ele precisava transmutar em desejo, em falas intermináveis em alegria.Precisava virar enlace, promessa, pacto, tratado de duas loucuras que se querem mais do que tudo.Precisava se tornar sereno para as horas difíceis e apto a quebrar os registros do outro para interromper o ciclo.Pecamos, contra nós, e os Deuses quando matamos o que sentimos a marretadas , mesmo sabendo que a crise passa, o trauma volta ao subsolo, mas o amor é eterno ele não entende as dores.Um dia, quero crer que alguém me busque, feche a porta, corra atrás do carro, mande flores com cartões de desculpas, faça um trato comigo, eu me afasto , tu me encontras, eu vou e tu me buscas.E assim nas loucuras de cada um possamos encontrar o caminho do amor eterno.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O que me pertence são os meus sonhos, os meus desejos o meu acesso à alegria.Viver é acordar e colorir o dia, usar os recursos para pintar a realidade tão sabida. Os ritos nada mais são do que adensadores, criadores de importância, catalizadores de energia. O que seria comum pode tornar-se belo e denso. As velas, a mesa bem posta, não tornam o alimento mais saboroso, mas atraente. Assim como um cabelo escovado, uma pele dourada, um dia de sol. Cada pensamento bom, apenas cinco minutos dele, aumenta nossas defesas imunológicas. Cansa mesmo, são as investidas infrutíferas, as decepções, a repetição do problema, o previsível. Exaure viver a instabilidade do emocional do outro que acorda colorido e dorme no escuro. Aceito os infortúnios, as fatalidades, todos os erros que digam respeito a mim, as minhas escolhas. Portanto não acinzente meu dia, não espante meu sol, não faça eu desacreditar, não menospreze meu esforço diário para ser feliz. Cabe a mim trazer e abraçar meus fracassos. Cale se for verbalizar o medo, não volte se não for me abraçar com vontade, vá embora até encontrar o seu caminho. Coma da minha comida se dela puder nutrir-se, use as roupas que eu passei lembrando do tempo que investi, desfrute da casa arrumada reconhecendo que eu poderia estar fazendo algo bem melhor. Valorize o meu trabalho, as poucas horas que me dedico porque faço por amor e, graças a elas mantenho tudo e sempre funcionando. Aos poucos, a cada frase que a tela exibe, vou me afastando mais de tudo o que não vem de mim e descobrindo que a melhor companhia sou eu mesma pela simples opção de escolha. Pela liberdade de querer ou não, fazer ou não, ser ou não, abrir ou não as janelas, enfrentar ou não os meus demônios. Nascemos sós e assim terminaremos. Acrescenta se puder, mas não pesa!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cansaço

Eu durmo quando o relógio bate as horas que não temos.
Quando os adeuses não adensam os abraços e não ouvimos os sons dos nossos passos na porta.
Durmo quando a coberta faz o seu papel, quando o cigarro aquece o abraço, quando o corpo em fibra, tomba.
durmo quando o que aprendemos não se tornou seta, quando sou cotidiano e não meta, sou instante e não futuro.
Durmo quando nossos sonhos caminham para lugares longínquos e paralelos, quando andamos juntos e não somos elos e a memória da chegada é mais intensa que a da despedida.
Durmo quando ando pela casa despida e meu calor acende a vela, quando vejo o tempo escorrendo pelas mãos, quando não há desculpa nem perdão e nada que justifique a passividade diante do inevitável fim que se aproxima.