quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Força.

Eu me sinto exausta das roupas que a vida me veste, das preces que o real me impede, das dores que se atravessam em meu caminho.Me sinto farta de não poder dar a mão a quem dei meu sangue e não poder dizer ao destino que ele está sozinho.Sinto o tempo me escorrendo pelas mãos ainda ocas, secas de abandono, enrijecidas pelo trabalho vago e incerto que não fez estrada, não gerou caminho.Me sinto tensa de responsabilidades e plena de amor.Amor que me tira o sono, que me faz partir para a guerra e me revela filha de Kali.Amor que me faz criar raizes, rotinas, sorrisos que não tenho e invento naturalmente.Estou cansada para a vida que decide por mim a estrada e me torna presa quando alço vôo.E se é luta, que não venha a paz.Por submundos estarei ao lado daqueles que amo, que me sobraram e em nome da Deusa estes eu resgatarei, não para merecer a viagem, não para receber os méritos, mas para um dia, o dia derradeiro morrer de amor por inteiro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Registros

Devia permanecer o que um dia foi bom.Como os gostos sabidos, as músicas que nos levam longe, o carinho que ativa o desejo.Devia permanecer a decisão de fazer algo novo e permitir o tempo de assimilação.Deveria ser para sempre o sorriso de bom dia, sagrado, fiel, o abraço do adeus, os momentos em que se descobriu a alegria.Como é oculta a descoberta na idade das raizes, como o novo rápido, limpo e cru nos assusta e se perde nas paredes sólidas dos registros.Queria poder quebrá-los um a um, destrui-los e me sentir livre, nua depois.Queria acordar e esquecer o que sei e sair sem credos, laços ou destinos e simplesmente vislumbrar, desvendar , dar a mão, buscar o novo.Adoraria se pudessemos ter um pacto de mudar tudo, roupas, formas, conceitos e já que a vida não muda, mudemos nós.Queria pegar tua mão estrada à fora e te dar meus olhos para veres que o mundo pode ser diferente, que se pode vencer o inimigo sem machucá-lo com estratégia , que se pode transmutar mágoa em lágrimas doces, incompetência em desafios, luta em conquista.Queria te dar a sensação prazeirosa de vencer a si mesmo, a melhor delas, a verdadeira superação.Lembra dela quando começaste?Lembra quando quiseste construir, juntar, arranjar, montar as peças soltas?Lembras o trabalho árduo que foi nos aproximarmos?Devia permanecer o que um dia foi descoberto como bom, selado, sacramentado, definitivo, solo fértil para as eternas viagens e descobertas.

domingo, 16 de novembro de 2008

Respeito

De repente loucos invadem o quarto dizendo falar em nome de Deus.E em nome de Deus em frente à senhora das orações começam a verbalizar insanidades.A Nossa Senhora da Salete, a santa que minha vó sempre acreditou e foi devota, de acordo com eles é a causa de sua doença pois nada mais é do que uma pomba-gira, e que ela está possuida por demônios .Para eles, a doença não existe, os evangélicos não adoecem , morrem de velhos, não são pobres pois Deus nos quer ricos e quem está enfermo ou morreu assim está dançando no fogo do inferno.A pessoa que verbalizou estas atrocidades aínda é parente.Onde estamos?Onde está o respeito religioso?Como doentes mentais se tornam enfermeiros e responsáveis por pacientes terminais.Quantos ele já não deixou morrer exorcizando.Pela primeira vez entendi a causa das guerras religiosas, ao menos as questionei.Tão perigoso quanto o nazismo este crescente grupo de seres alienados, fruto de lavagens cerebrais invadem nossas casas , ruas, seduzem ignorantes, enriquecem as nossas custas, assediam nossas crianças, em nome de Deus.Estes templos, fabricados, pensados onde desde a decoração até o som são projetados para atingir zonas cerebrais e fabricar soldados alegando tirar do vicio, da infidelidade, da pobreza, nada mais são do que um teatro, um palco de grandes atores e curas combinadas regadas a parte do salário suado dos pobres fiéis.Cada um faça suas escolhas , somos responsáveis por elas, ou não.Mas que haja respeito.Meu avô dizia: respeito é bom e conserva os dentes!

domingo, 9 de novembro de 2008

Para Gilson França Goulart, um grande homem!

Um homem belo, um belo violão e os passos silenciosos da expectativa nos corredores frios de um hospital.Uma senhora feita de luz,entregue, inerte,imóvel, desistindo...De repente a música, as canções que ela sabia e aquela voz fraca entoando as melodias e querendo, através delas, dizer tudo o que sentia.Os olhos brilhavam e ordenava que a virassem para o lado de onde a música vinha, que levantassem a cama pois a vida voltava a mover seus ossos frágeis.A cada instante alguém chegava, um enfermeiro, outro, os anjos cuidadores dela e todos perplexos com sua sede de sugar aquele momento, talvez o último ou o primeiro, a motivação que faltava.E ela cantava e lembrava e chorava de emoção e todos comovidos cantavam juntos mesmo desconhecendo a canção.Um homem belo, um coração, que por um breve momento trouxe uma mulher de volta.Das decisões da vida, te amar é a que me causa mais orgulho.

domingo, 2 de novembro de 2008

MEDO

O que seria de nós soltos e distantes.Que roupa eu usaria se não pudesse perceber teu olhar de ciúme.Que música eu escutaria que não me lembrasse tua voz, que textos eu leria se não pudesse discuti-los depois.Que alimento eu faria se não pudesse vislumbrar teu sorriso de satisfação, como quem degusta a maçã do paraiso.Que casa eu perfumaria se não fosse para guiar teu rumo.Que sentido eu daria para minha vida sem tuas filosofias de não fazer sentido, sem teu ateismo que me apaixona pela coerência e lucidez.Quem me levaria para a cama nas cobertas dos carinhos noite após noite e me faria adormecer ao som de sua risada.Quem me ensinaria as diferenças, as paciências , todas as seguranças que busquei a vida toda.De que valeria o trabalho se no final do dia, no final das forças, no cansar do corpo não pudesse me atirar em teu abraço e matar a sede num longo beijo...O que faria com minhas mãos deslocadas sem as tuas, minha voz sem teu compasso, meus impulsos sem teu freio, meu desejo descabido sem tua fome, minhas estradas sem tua seta, meus desesperos sem tuas sábias palavras.Quem eu seria não fosse o teu desenho exageradamente apaixonado que me torna bela, o teu zelo que ilumina meu caminho, a tua cara de saudade que me traz de volta.Medo tens do tamanho deste amor porque ele abrangeu tudo, tomou conta, limpou os cantos, abriu janelas, se fez sorriso, livro, música, cheiro, pele, desejo, vazio e eco.Medo tenho porque me deste sentido à vida, objetivo, sonho, consequência.Tenho medo porque já não é tão fácil simplesmente partir, desistir, interromper.Teu amor me faz querer viver e isto me apavora!

Momento

O momento é de pisar leve, de acreditar sem escolher, de respeitar o curso da história.
O medo nem sempre é da face da morte, mas do abraço do adeus.
A beleza aparece nas horas mais cruas, nas lágrimas que jorram somente quando as comportas se abrem, no suportar mais do que se julga poder e ir além por amor.
Aparece quando pessoas se unem para tomar conta, acalentar, acalmarem-se mutuamente e onde os erros se apagam, as mágoas, porque algo maior rebenta, a compaixão.
Me sinto num turbilhão de emoções e incertezas , um temor de sorrir previamente para desabar depois.
Vai passar, como tudo passa.
Só sei que hoje ao tocar os cabelos da senhora das orações, sinto cada fio, como fibras da vida, cada beijo em sua testa respiro fundo para eternizar seu cheiro, cada minuto se torna vital e único.
Nunca os dias a mais tiveram tanta importância, nunca o tocar do telefone foi tão enfadonho, nunca meu coração acelerou tantas vezes num mesmo dia.
Mas por ela, todas as dores, todos os amores, as flores e as cruzes.
Por ela tudo é sempre pouco, sem ela, todos os vazios.