sábado, 8 de agosto de 2009

Vanessa

Sinto uma saudade imensa da minha filha.Coisa de mãe achar que ela precisa de meus conselhos ou que aquelas palavras prontas ajudariam em algum momento.Eu a amo, o amor mais cruel e puro, cruel por ser instinto e a fome dos instintos dói.Quero o cheirinho dela de menina, aquele suorzinho que fica perto dos fios de cabelo, a impaciência herdada de resolver tudo que a incomoda, a densidade que a faz tão bela e forte e fraca e confusa e minha.Me nutro de raiva de mim pelas escolhas que fiz e que hoje me impedem de vê-la.Me desgosta o que me tornei há alguns anos, por segurança.Não bebo, não como o que me possa fazer mal, tenho medos e medos de perder o pouco que adquiri e juro que gostaria de mandar tudo as favas em nome da única certeza que tenho, meu amor por ela.Que vontade de tomar um vinho e dizer o que não posso e não ser educada e dançar com meus amigos e viajar escutando Ana Carolina, a música mais devassa, a estrada mais perigosa, com minha filha ao lado, e à noite, escolhermos a roupa da festa .Saudade filha da mulher que encantava, que acreditava, que se permitia.Preciso dela e mais agora quando não estás.Não há um dia sequer que não pense em vender o carro colocar a mochila nas costas e ficar perto de ti, é quase um veneno. Ser tua mãe, linda menina é o maior tesão que tenho na vida porque de ti só vem o que me esgota, a adrenalina que me torna viva.Te amo!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O quarto

Era uma menina marcada pela ausência de pai.Eram diversas casas, quartos cedidos, mas nunca verdadeiramente seus.Uma presença sempre condicionada às imposições dos donos.Quando finalmente a vida lhe presenteou com um cantinho, era o seu quarto,sua caminha , sua familia, seu pai.Ela fugia aínda, como um bichinho que aprendera a ser solto, mas voltava a ser criança ao adentrar nos cômodos da casa.Era parceira, amiga , fiel, filha.Seu pai, amava ouvir sua voz de bebê chamando por ele, pedindo beijos antes de dormir, requisitando sua presença.Mas quando os filhos verdadeiros chegavam, o quarto não era mais dela, era preciso cuidado para não chamá-lo de pai na frente deles e qualquer carinho parecia um cabelo a importunar-lhe a face.Eles eram legítimos, eles tiveram um quarto, uma familia, um pai.E a filha emprestada, que nunca esquecera um aniversário, um abraço, um te amo, agora deveria ceder aos enfantes verdadeiros.Eles iam e vinham, quando desejavam, magoavam como quem pisa em flores e voltavam sorrindo, como se nada tivesse acontecido.E a menina tinha que sorrir também ou sair de casa.De preferência sentar na sala e assistir, aplaudir a bela voz que ela não tinha vivendo por osmose seu sonho inútil de cantar.Eles eram perfeitos, bonitos, bem sucedidos e unipotentes.Tinham o poder de afastar e atrair ao estalar os dedos e ela, não tinha nada que fosse realmente seu.A única vez que a filha emprestada sentiu bases no amor para dizer o quarto é meu, o pai é meu, causou-lhe uma mágoa profunda, e neste exato momento, suas cobertinhas desapareceram do roupeiro, suas coisinhas, seus livros, sua caminha cheia de bichinhos, se dissiparam como o vento.Queria poder ter dado a menina o quarto como uma verdade em sua vida, mas mais uma vez ela só pode ficar se entender que aquilo ali não é seu, que não pode causar constrangimento áqueles que chegarem para dormir.Cabe a mãe aínda que tardiamente lhe dar o quarto que será só dela, dar seu coração e seu colo para que ela possa enfim caminhar com segurança e um dia pintar as paredes de um verdadeiro lar.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Infância

Eram muitos brinquedos, medos e ausências.
Um zelo exagerado de quem protege a ferida e compensa a perda.
Era a mãe que não assumira a filha, entregue aínda no berço.
E avós perfeitos, perplexos prontos a acolher a menina.
Era eu a criança, e sempre só ensaiava a dança do amor de mãe, da familia unida, do quarto colorido e o beijo antes de dormir.
Adorava um sapatinho mágico e sempre estava impecável, comportada , solicita como quem tem consciência e gratidão.
Eles me ensinaram tudo e eu retribuia com perfeição .
Minha mãe vinha de visita, moça, linda, e descomprometida.
Hoje, não sei aceitar presentes, me enrubece as faces , nem tão pouco comprá-los.
Me cobro demais, tudo impecável, como se do contrário, não merecesse á casa onde vivo.
Recebo amor do homem que me embala, me traz de volta e abriga em seus braços, o bebê do berço branco, a mulher da casa arrumada, o resultado da infância.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ama o quê?

Durante muito tempo vivi um relacionamento em que a pessoa afirmava me amar.Bastava um feriado para ele planejar programas separados, não podia me ajudar porque queria me tornar independente, não me desejava,mas me amava e fui me contentando com migalhas de sorrisos, beijos e alegrias tão rotineiras quanto escovar os dentes.Será que existe amar diferente?Me questiono se o amor não é o mesmo para o inculto e o sábio por se tratar de sentimento.Aínda hoje vislumbro eu te amo, sem a menor solidez, sem atitude, sem verso.Ama o quê? Ama as vezes que te esperei cheio de entusiasmo e não apareceste? As promessas dos almoços de domingo e o rombo no cartão de crédito que fazia para teres o melhor?As músicas escolhidas a dedo para tocarmos juntos quando aparecias.Amas o telefonema não dado, o cheiro do livro velho com a dedicatória já ultrapassada ou os tempos idos.Amas a mim ou minha memória, o que sou e escolhi para minha vida ou meu retrato amarelado presente na tua.Amas o homem que hoje estranha não ser feliz ou o pai denso preso as dores antigas e culpas.Amas o insith de amor que te acomete, e o descaso depois que baixa a febre , ou amas me amar de vez em quando como quem abre um diário antigo e se surpreende com a foto do namorado? Será que este é o amor diferente ou amor continua sendo sinônimo de saudade, desejo de estar perto, respeito e orgulho e a pressa de viver para ser feliz.Eu mudei, conheci o amor que faz viver, o amor que vacila, mas não morre, o amor que cresce com o passar dos anos e trabalha incansavelmente para colher os próprios frutos.Se é esse o amor do qual te referes, vem.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Hora de partir.

É hora de partir quando já não há empatia entre os laços.Quando o abraço se torna um ato reflexo, quando se condicionam atitudes à gratificações.É hora de partir quando o carinho vira hábito, quando não há mais sentimento e o sangue nas veias já coagulou.hora de deixar para traz pessoas, história, rótulos impostos, fracassos.O filho que não respeita, a matriarca alienada , o algoz do passado.É hora de soltar os nós do compromisso, o peso da culpa, os restos e objetos carregados de lembrança.Momento de reiventar a dança, redecorar a casa, trocar as vestes pesadas de profissionalismo.Tempo de pegar o amor e a mala, o violão , a sapatilha, o livro, juntar os fragmentos que sobraram das decepções e seguir a estrada.Cidade nova, gente sem passado, a gente sem memória e um novo roteiro a escrever.Ainda que tarde, hora de crescer para as verdades, de acreditar nas novidades e nas surpresas, de dar o último grito, hora de simplesmente deixar os móveis que não saem do lugar, os critérios imutáveis, as toalhas de linho do século passado e o amor fingido, enquadrado, ensaiado e preso.Sabe-se que é hora de partir quando não se cabe mais no cenário e a inadequação pesa mais do que o suportável.A vida nos faz enxergar com olhos ilesos quando é hora de partir.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Os medos do amor.

Longe dela serenamente pensava; onde encostaria aqueles cabelos macios , que almofada abrigaria seu descanso.
Quem acariciaria seu corpo quando se sentisse confusa.
Onde acalmaria seu desejo sempre ardente o qual nenhum tempo era suficiente para esgotá-lo.
E se , enquanto me distraio em trabalhos longos alguém souber acessar os sonhos dela, ou oferecer-lhe um café e uma conversa, ou simplesmente ao acaso esbarrar com ela na rua e sorrir.
E ela com seu encanto , ingenuamente acreditar na beleza do momento e soltar a imaginação romântica de uma mulher que acredita em sinais.
E se de repente um vento balançar os fios do seu cabelo e o sol iluminar os seus contornos e alguém impressionado simplesmente inventar o amor.
E se ela virar poema, música, destino, onde me colocaria em sua história?
Haveria recúo ao pensar em tudo que vivemos, em nosso eterno entendimento, em nosso prazer certo e cotidiano?
Optaria por mim diante da possibilidade do novo ou desejaria sentir cheiros novos, novos hábitos, surpresas.Meu Deus ! Ela adora surpresa.
E se ele gostasse de ritos, petálas de rosa espalhadas pela casa, flores nas datas e presentes e loucuras de amor?
Fui longe, confesso! E confio na lealdade do que ela sente por mim.Em nome do amor, que ela volte sorrindo, saudosa e linda para os meus braços.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Mentira

Ela se prendia a portas fechadas, trancas e objetos à fim de manter-se ilesa.
Mentia para o futuro com seu eco de memórias.
Indefesa, agarrava-se a conceitos, normas e ditados inúmeras vezes adaptados para responder ao ritmo lento do coração que pulsava.
Ela ousava fazer planos de não realizar, viagens de não fazer, presenças de não estar.
E mentia para o dia que ansiava a noite, por medo de nem acordar.
Fixava nas paredes suas raizes de concreto, enquanto sua alma exausta gritava por liberdade.
Era fatalidade, a mentira da vida diante da verdade do tempo que finda.